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Fragmentos de Miguel Moreno

recordações, paixões, aventuras de quem já viajou por todo o país... a vida é bela

Ser pai e os seus estereótipos - parte 2

13.06.21, MM

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(continuação...)

Surgiu de surpresa, num jantar de amigos, o anúncio da chegada da hora de colocar no mundo uma nova vida... Vários sentimentos foram aqueles que assolaram aquele pai naquele preciso momento, desde o desejo de ter um filho nos braços ao receio que alguma coisa pudesse correr mal. E nesse dia, em dia de comemorações desportivas, a viagem até ao hospital foi uma verdadeira aventura. Aquela mãe assim que chegou no hospital, entrou logo em trabalho de parto e quando a enfermeira o questionou se queria assistir, o pai ficou atónito, sem saber o que dizer ou o que fazer, num misto de emoções que viajaram pelo seu pensamento numa velocidade vertiginosa e no entanto, não conseguiu proferir uma única palavra. Naqueles breves segundos, enquanto ganhava coragem para assistir ao parto, este já tinha acontecido. Um pequenino rapaz chorando a plenos pulmões, esperneando e agarrando a mão do pai como quem agarra a vida, e no entanto, parecia tão frágil, tão delicado. Quando lhe pediram para o segurar ao colo, o seu enorme receio não permitiam que o segurasse corretamente, devolvendo-o logo à mãe. Um mundo completamente novo abriu-se perante si, sem certezas se estaria à altura daquele enorme desafio.

Numa altura em que o espectro do desemprego assolou aquela família, tiveram de viver com extremas dificuldades. Muitas pessoas viraram as costas, quer amigos, quer familiares, acabando entregues a si mesmos. Vários foram os comentários depreciativos: "põem-se a fazer meninos e agora quero ver como vão cuidar deles”; “cá para mim fez o filho para te prender”; “ bem, este pelo menos já é teu”; “então mas ela não tomava a pílula? grande azar”; “ela vai trabalhar e tu é que vais cuidar deles? isso não está correto”.

Com apenas a mãe a trabalhar, coube ao pai cuidar dos filhos. Sem os seus amigos que estavam longe, sem a sua família, apenas com muito amor para dar e o constante duvidar das suas capacidades para cuidar de um rapaz e de um recém-nascido. Aprendeu a cozinhar comidas básicas, encontrou coragem para os banhos, a higiene, a alimentação, a educação daqueles que dependiam de si. Felizmente foram surgindo “anjos”, pessoas quase anónimas que iam ajudando da forma que podiam. Entretanto, um problema com a inscrição do filho mais velho na escola, fez com que tivesse que ir para uma outra mais distante, acabando dessa forma por ter de ir morar para casa de um familiar, uma decisão que abalou aquele pai, sentindo-se impotente e incapaz perante aquela situação. Mas um triste acontecimento fez com que recebesse uma pequena herança, permitindo equilibrar as coisas. A primeira decisão foi mudarem-se para uma nova casa, voltando a ter consigo os dois filhos. 

Com os dois a trabalhar e numa vida mais ou menos estável, a mãe decidiu que queria estudar à noite. E embora aquele pai lhe desse todo o apoio, mais uma vez entrou em pânico. Agora além de cuidar dos filhos, teria desta feita também a importante missão de os adormecer, aprendendo a contar histórias, muitas delas inventadas, ou brincando com eles até à exaustão. Uma enorme cumplicidade entre pai e filhos cimentava-se de dia para dia, numa união cada vez mais forte, tornando-se um porto de abrigo para as lutas diárias daquele pai. Corriam, jogavam à bola, rebolavam pela relva, tudo isso perante o olhar de desdém, de quem acha isso um comportamento inaceitável e que um pai não se deve expor a tais figuras.

Durante algum tempo as coisas corriam aparentemente bem, embora interiormente havia coisas que não faziam muito sentido, mas a correria do dia-a-dia não permitia grandes reflexões, e depois de um trauma de uma aborto espontâneo, decidiram tentar ter uma menina. E passado algum tempo lá surgiu a grande novidade. Iriam ter uma menina, a menina do papá!

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