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Fragmentos de Miguel Moreno

recordações, paixões, aventuras de quem já viajou por todo o país... a vida é bela

Destino ou acaso?

15.04.21, MM

MM destino ou acaso cópia.jpg

 

Não sei como descrever ao que por norma se designa com o nome de destino, nem mesmo a suposta razão da passagem do tempo. 

Destino: “Combinação de circunstâncias ou de acontecimentos que influem de um modo inelutável. = FADO, FORTUNA, SINA, SORTE”

Tempo: "Série ininterrupta e eterna de instantes"

 

Acordei a meio da noite completamente mal disposto e com uma daquelas dores de cabeça horríveis. Reflexos físicos dos estados de ansiedades e dos nervos, aos quais tinha deixado entrar e influenciar o meu ser, a minha alma. Problemas do quotidiano, situações complicadas e delicadas de gerir, responsabilidades profissionais… normalmente são acontecimentos com os quais eu lido bem, mesmo em momentos de enorme stress. No entanto, a instabilidade emocional atira-me ao chão de uma forma completamente desamparada, e uma simples poça passa a ser um lago profundo cheio de piranhas, o qual eu tenho que atravessar a nado, sem sequer saber nadar. Toda a insegurança toma conta de mim, os meus dilemas e demónios surgem vindos das profundezas onde já tinham sido enterrados. 

Mesmo num estado físico lastimável, arrisquei deixar os miúdos na escola e fui trabalhar. Mas percebi logo que tinha sido um erro. Nem os chás nem a medicação estavam a fazer qualquer efeito. O mundo parecia continuar a desabar na minha cabeça e olhando-me ao espelho parecia uma personagem de uma qualquer série sobre mortos-vivos. Nada conseguia acalmar as dores físicas, que pareciam originárias das mais profundas entranhas e até mesmo o simples carregar na tecla “enter” era um martírio, quanto mais tentar analisar documentos.

À hora de almoço decidi ir até casa almoçar no intuito de descansar um pouco. E é durante essa viagem que tudo muda. Há um lugar onde os nossos caminhos se cruzam e hoje simplesmente aconteceu. Talvez seja o destino, forças cósmicas, manipulação de acontecimentos através do pensamento, acaso? Eu chamo-lhe ironia, a mesma ironia que me têm acompanhado ao longo dos anos, como uma premonição, ou talvez uma maldição.

Quando entrei naquela rotunda percebi logo que o carro que estava à minha frente era o teu, e pelo movimento do teu cabelo tive nesse momento a certeza absoluta que eras tu que estavas a conduzir. Vários pensamentos passaram pela minha cabeça a uma velocidade estonteante, entre indecisões e desejo de te ver, principalmente de te ver… Sabia que ias estacionar, razão pela qual te dei espaço e tempo para o fazeres tranquilamente e já com o carro parado, avancei lentamente deixando o meu carro paralelo ao teu. Olhei-te e tu olhaste para mim, num momento de pura magia. Estavas lindíssima como sempre. A tua reação foi de espanto total, misturado com uma alegria resplandecente, de não estares acreditar que eu estava mesmo ali, e para mim, aquele momento que eu tanto desejara estava mesmo a acontecer. Fizeste o mesmo sorriso que sempre fazias quando me vias, com o mesmo olhar terno como que sempre me olhavas. Ficámos assim por breves momentos como que hipnotizados. Mas já tinha carros atrás a querer passar e eu tive que avançar e sem possibilidade de estacionar, acabei por seguir o meu rumo, tanto mais que tinhas que ir trabalhar e eu tinha que ir almoçar.

E em segundos todo o meu estado de espírito mudou, sendo que o estado físico reagia da mesma forma. Já em casa fui até à varanda, e à brisa quente que se fazia sentir, desabafei todos os meus sentimentos e quanto estava feliz por te ter visto. Talvez na esperança que as minhas palavras cheguem até aos passarinhos e que estes, durante a noite, invadam os teus sonhos com a minha presença e te sussurrem este meu desejo, este meu amor...

Após almoçar estava quase completamente recomposto, regressando ao trabalho quase como se nada tivesse passado. Na minha memória aquele singelo sorriso que o tempo não conseguiu apagar. Talvez um, dois anos… já nem sei… mas quando aconteceu foi como se nunca nos tivéssemos deixado de ver… e foi tão bom.

Na infinidade de probabilidades de te encontrar ou não te encontrar, acabou por acontecer em circunstâncias que me fazem colocar imensas questões: serás mesmo a minha alma gémea? estaremos destinados? ou serás apenas uma mera utopia que ilude o meu coração? 

Destino, forças cósmicas, manipulação de acontecimentos através do pensamento, acaso? Eu chamo-lhe ironia, aquela com que a passagem do tempo gosta de me brindar. 

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